
"Mas ainda prefiro tormento com vida, prazer, acontecimento, do que uma serenidade fria, distante, omissa de si mesmo.
Quero, claro, como qualquer pessoa, ação e serenidade, bem dosados, paixão e tranqüilidade.
Quero tudo, como qualquer humano, qualquer santo, qualquer pilantra.
Confesso: sou um homem que gosta de tempestades, cinzas, tormentas, chuva.
Opto quase sempre pela estrada, ainda que sinuosa, ainda que sob a chuva.
Opto por descobrir como é o mundo depois daquela curvazinha ali na frente.
E por isso, ando.
Canso, me machuco, dou com pedras, buracos, mas também flores, paisagens e, claro, a caminhada, pois ela por si mesmo se completa em gozo.
E me chove por dentro sempre que fico nesse espaço entre o desejo realizado e o negado, a dor de não declarar ou de declarar o amor e ele não ter jeito.
Talvez eu seja mesmo um astronauta, que navega num espaço sem ar nem gravidade, mas onde vê melhor as estrelas.
Uma terra arada, que dá fruto; uma fruta lacerada, mas provada; um beijo faltante, mas depois de um beijo conseguido, dado, concretizado, recebido, correspondido, compartilhado.
Talvez eu acabe tolerando uma mutilação qualquer, como de algum modo mutila qualquer coisa que acontece.
Quero até que seja pequena, a menos danosa que for possível ocorrer, mas sei que qualquer caminho tem um custo, qualquer opção sua cota de dor, qualquer amor, qualquer paixão, qualquer refeição, sua cota de faca de cortar, e qualquer corte sua cota de saudade: saudade do que não é mais, do que poderia ser, do que é agora.
Cada corte, cada toque, muda o mundo."
(trecho de Mutilações, de William Douglas)
Recebi esse texto agora há pouco de Ivana, via e-mail:
"Oi Netinho;
Enquanto espero o dia feliz em que voltarei a bater ponto nos seus shows (hahaha), vou acompanhando seu blog, suas entrevistas etc; e hoje mesmo estava lendo um trecho de um texto que achei parecido com você:
Resumindo: "Nada como viver" ;-)
Sempre lembro de você se referindo a essa duplicidade, essa necessidade de viver a dor, apesar de.
_______________
Saudade viu!;-)
Ivana (Fortaleza-CE)"
Ivana,
foi na mosca!
Um beijão.
Netinho.
Acabei de receber esse próximo texto, de Maria João, da cidade do Porto, em Portugal:
"O homem que só queria viver!!!
Conheci um homem que me ensinou que viver não é ficar sentado no trem que já conduz a nossa vida quando nascemos!
Conheci um homem que cedo me ensinou, possivelmente até sem se dar conta, que não somos o que os outros esperam de nós, a partir do momento em que nós próprios nos permitimos a isso!
Esse homem tinha um mundo distante, construído pelas suas próprias experiências, onde levitava sozinho entre sonhos, dúvidas, emoções fortes e imaginários muitas vezes cogitados ao mais profundo detalhe.
Esse ser humano (sim!) saía desse mundo distante à procura de um pólo atractivo confirmatório de que tudo isso existe e, então, rumava ao seu mundo distante, acompanhado, permitindo aos outros levitar.
Assim, ensinou paixões, amores e desamores, desejos cumpridos que encheram os olhos de estrelas, ou a boca de dissabores.
Ensinou seres a tocarem-se de forma diferente, a sentirem-se juntos estando distantes e até o vice-versa, quando sozinho rumava entre multidões, carregando apenas a sua mochila de sonhos – o homem “cidade solidão”!
Conheci um homem que se parecia com a lua – por vezes, inflado, cheio, até ofuscante e rindo de suas próprias crateras, por vezes sumindo minguante até não mais ser visto, e voltando crescente dessa “lua nova” (em que não o vejo mas sei que ele lá está), renovado, preparado, cheio de novos sonhos, dúvidas, emoções fortes e imaginários muitas vezes cogitados ao mais profundo detalhe.
Nesse ciclo, que jamais algum dia se tornará repetitivo/monótono, esse homem não tentou ensinar ninguém a levitar como ele, nem pretendeu que alguém entendesse esse processo.
Foi com esse homem que eu me dei conta de que ser arrojado e saltar a fogueira, vale muito mais do que ver o fogo de longe sem poder sentir-lhe o calor, sem deixar que os olhos percebam o amarelo, o laranja, o vermelho, o azul das chamas… ao pormenor!
Ele também me ensinou que isso tudo só vale a pena e faz sentido quando é o que buscamos para o nosso traçado! E que o acto de querer que nós façamos sentidos, não faz sentido!!!
Ele ensinou-me que transitoriamente (porque a vida assim o obriga) podemos ser tudo aquilo que quisermos, desde que não esperemos que alguém nos traga o pacote pronto desse “destino” como presente!
Esse homem, eterno menino, ensinou-me que não precisamos estar dentro de uma armadura ou de uma concha para nos protegermos.
Ensinou-me que o simples facto de sermos uma unicidade, um mundo particular, já nos cria numa bolha que nos protege dos toques que não queremos, dos olhares que não vamos retribuir, das mãos que não queremos apertar e das palavras que não vamos querer lembrar mais tarde.
Ainda que isto possa escapar-nos, esse homem ensinou-me que isso não é grave, que não há problema, pois naquele jeito de ser único, diferente, arrojado e corajoso que conseguirmos ser, não penetrará nada a fundo que nós não deixemos. Porque, repito, ensinou-me a não ficar sentada no trem que já conduz a nossa vida quando nascemos!
Talvez esse homem me tenha ensinado o verdadeiro valor da vida e me tenha incentivado a existir de uma forma que eu não tivesse almejado sozinha.
Isso ainda bem precocemente!
Ele, tão profundo, que às vezes se confunde na imensidão do seu próprio ser, faz parte daquilo do que hoje sou eu.
É aquele homem que um dia me disse que só viverá enquanto valer a pena e que deixou essa frase sonante na minha mente até hoje, até sempre!
Esse, foi o homem que eu imortalizei ainda em vida, que eu embalsamei em movimento…
Esse homem é aquele que, na minha vida, nunca irá morrer!
O infinito é pouco para tudo isso!
Amo-te muito!
Maria João
14/02/2009 - 06:40"