UMA VISÃO SOBRE A GRIPE SUÍNA - POR SARAMAGO
15:45hs - Gripe Suína
José Saramago
"Não sei nada do assunto e a experiência directa de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor.
Há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vector da mutação gripal: tanto da "deriva" estacional como do episódico "intercâmbio" genómico.
Há já seis anos que a revista Science publicava um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe. Nas últimas décadas, o sector pecuário transformou-se em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica quinta familiar que os livros de texto na escola se comprazem em descrever...
Em 1966, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um milhão de granjas. Actualmente, 65 milhões de porcos concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar das antigas pocilgas aos ciclópicos infernos fecais de hoje, nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos para intercambiar agente patogénicos à velocidade do raio, se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que debilitados sistemas imunitários.
Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada. Voltarei ao assunto.
.....................
Continuemos. No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a "produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos". A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas - mais barato que em ambientes humanos - estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas.
Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.
Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas.
Tudo está contagiando tudo.
A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez.
Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional?
Quem nos acode?"
Como sempre, Saramago escreve sobre os fatos reais com total lucidez.
José Saramago
"Não sei nada do assunto e a experiência directa de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor.
Há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vector da mutação gripal: tanto da "deriva" estacional como do episódico "intercâmbio" genómico.
Há já seis anos que a revista Science publicava um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe. Nas últimas décadas, o sector pecuário transformou-se em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica quinta familiar que os livros de texto na escola se comprazem em descrever...
Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada. Voltarei ao assunto.
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Continuemos. No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a "produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos". A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas - mais barato que em ambientes humanos - estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas.
Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.
Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas.
Tudo está contagiando tudo.
A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez.
Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional?
Quem nos acode?"
Como sempre, Saramago escreve sobre os fatos reais com total lucidez.




7 Comentários:
Darei sempre voz a esse homem e às palavras dele. Polémico, pouco brando, vivido e "demasiado lúcido" para a idade.
Um ídolo, sem sombra de dúvidas. Queria um décimo da capacidade criativa e do dom pra escrever!
E a biografia dele demonstra o quanto n temos que nos resignar ao lugar que nos cabe na vida à nascença.
Torço para que a morte, apesar da idade avançada, ainda tarde para ele...
Eu so sei que estou com muito medo disso.Gripe suina!!!!
Aqui onde moro estão tendo muitos casos de dengue,muita gente morrendo,os hospitais super lotado,um caos.Para os que tem fé so nos resta rezar e tentar nos previnir.
Um beijo
Te amo
Oi Jardineiro;
O blog está melhor que nunca!:-D
Tô meio dodói, então menos "comentadora":-P
_________________________________
Mas realmente...essas mutações loucas que esses vírus sofrem...coitados dos vírus, eles só estão cumprindo seu papel no mundo: ser vírus.Sim, por que eles só evoluem de acordo com leis biológicas que existem desde que Eva tirou a maçã do talo.
O ser humano sim, este é letal para si mesmo.Inverte tudo, trasforma o planeta num caos, cria uns sistemas econômicos que não respeitam nem Deus nem o Diabo e não pode arcar com as conseqüências depois.
Adorei o texto do Saramago.
Beijo bem grande:-D
Muita lucidez...
"A primeira morte foi da honradez"
Onde vamos parar hein?!
O mundo precisa da nossa união, da coletividade, do SER HUMANO... e estamos cada vez mais individualistas, mais egocentricos... (sem palavras)
Em meio a essa situação tensa e nada agradável, vou desconrair um pouco: Beijos no porquinho da índia (adoreeeeiii) :D
Muito bom!)
* O sol voltou a brilhar na nossa cidade!)
"...Estou com sintomas de saudade, estou pensando em você,
Como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você...,
Pois te quero livre também,
Como o tempo vai o vento vem..."
Escapou!D
Oi Netinho...
muito bom dia!!!
Desejo a vc um bela semana super especial,abençoada e iluminada!!!
repleta de luz,energias positivas e boas vibrações!!!
Um bela mensagem pra vc!!!!
Amor é que dura a vida inteira.
Se não durou é porque nunca foi amor.
O amor resiste a distancia, ao silencio das separações e até as traições.
Sem perdão não há amor.
Diga-me quem você mais perdoou na vida e eu então saberei dizer quem você mais amou.
O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão.
Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz.
“Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você.
Eu não sou nem a metade se você não estiver por perto.”
O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração
que sozinhos jamais poderíamos enxergar.
O poeta soube traduzir bem quando disse:
”Se eu não te amasse tanto assim talvez perdesse os sonhos
dentro de mim e vivesse na escuridão.
Se eu não te amasse tanto assim
talvez não visse flores por onde eu vi,
dentro do meu coração!”
super beijosssssss
te amo incondicionalmente!!!!
Eternamente 100% VC
NADA vai nos SEPARA
NADA como VIVER pra sempre AMAR vc!!!!
Saudades!!!!!
Saramago é o meu autor contemporâneo predileto sem par na atualidade. Li toda a sua obra. Sabe descrever o movimento das massas como ninguém. É uma leitura para refletir e rir (rir e refletir). Anseio sempre pelo próximo lançamento.
Enfim ...
Se te inspiras em Caetano ... me inspiro em Saramago. Não é à toa que dedicaste um poste para mim intitulado "Clareza e Lucidez"
rsrsrrsrsrs
Bjssss elefantescos, cegos e à deriva do continente ou à beira da morte (quantos mesmo????hehehehe),
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