Terça-feira, 12 de Junho de 2007

FRAGILIDADE E INTENSIDADE

Publiquei esse texto no meu blog antigo no dia 09 de maio de 2007, 07:07


Eu nunca gostei de ir a hospitais e há algum tempo não fazia isso a não ser para os meus check-ups anuais.
Não tenho medo algum da morte mas tenho pavor de ficar doente e impotente numa cama.
Só de pensar nisso, estremeço.
Nesta segunda feira fui até o hospital São Rafael aqui em Salvador visitar um amigo irmão que sofreu um infarto.
Já cheguei lá meio fragilizado pois gosto muito desse meu amigo e a notícia de que ele havia sofrido um ataque do coração pegou a todos de surpresa.
Família e amigos, todos tomamos um grande susto.
Além de ser um atleta e de não ter histórico de doenças cardíacas na família, esse amigo nunca fumou e tem hábitos saudáveis como dieta equilibrada e um rotineiro check-up semestral.
Quando entrei no hospital e fui andando até o quarto na UTI, parecia que eu estava assistindo a um filme em câmera lenta. Pacientes passavam em macas; outros se encontravam em macas estacionadas no corredor do hospital; médicos e enfermeiros sempre com pressa entrando e saindo dos quartos; rostos tristes e preocupados de pessoas certamente à espera de algum parente ou amigo internado olhavam prá mim, e minha mente ia reagindo a tudo aquilo.
Cada segundo parecia durar horas.
Estava assistindo a tudo mas ao mesmo tempo parecia que eu estava em outro lugar.
Parecia que eu não estava ali, uma sensação muito estranha.
Ver semelhantes naquele estado é algo que nunca gostei.
No fundo rejeitamos aquela condição e no nosso dia a dia sempre achamos que não iremos parar ali.
Mas a verdade é que estamos bem mais próximos do que costumamos imaginar.
Basta um segundo e algo de ruim pode acontecer a qualquer um de nós.
E lá estaremos.
Na ante-sala da UTI encontrei com parentes do meu amigo e aos poucos fui saindo daquele estado estranho.
Entrei no quarto.
Durante o pouco tempo que fiquei lá estive tonto e me controlando para manter o domínio sobre o que eu falava e ouvia.
Não sei como permaneci em pé.
De vez em quando e em algumas situações isso acontece comigo.
Não sei de onde vem mas sinto que é algo espiritual e por ser assim não me incomodo.
Brinquei, contei minhas novidades, perguntei como aconteceu tudo, mas não conseguia parar de pensar em como ele devia estar se sentindo deitado ali. Já passei por situação semelhante quando do acidente de carro em que meu pai morreu e que precisei ficar um longo tempo internado em um hospital aqui em Salvador.
É uma sensação máxima de fragilidade, impotência e solidão.
Ali você está entregue realmente aos acontecimentos, à sua sorte.
Ali você pensa nos seus planos, nos projetos inacabados, nas pessoas que ama, nos amigos e nos inimigos.
Pensa na sua vida.

Apesar de angustiante, um momento dessa natureza é um grande momento.
Muitas coisas mudam de valor prá você.
Quando entende que poderia ter morrido ou que chegou bem próximo do fim, tudo passa a ter outro signo.
Obviamente só entende isso quem já passou por tal situação.
E olha que, mesmo assim, ainda esquecemos disso na rotina dos nossos dias.
Como seria bom se o domínio da ciência dessa situação fosse inato em todos nós.
Seríamos tão diferentes...

Paulo, desejo uma rápida recuperação para você.
Que você retorne logo para o nosso convívio.
Sei que está aprendendo com esse momento e isso é muito bom.
Também aprendo e reafirmo aqui para mim a certeza de que devemos viver cada instante no máximo grau de intensidade dando importância ao que sentimos e não ao que os outros acham ou pensam sobre nós.
Um beijo do amigo que te ama e torce por você!

Netinho


Agora a resposta do meu amigo Paulo, que leu este meu post ainda na cama do hospital:

"Li sua Mensagem...... Voltei a ler inúmeras vezes!!!!
Em todas me emocionei muito, sem poder........
Meu coração já não é o mesmo (risadas entre lágrimas!!!).
Porém, tenho fé que manterei todos os amores
Todos os valores e todas as coisas boas....
As coisas ruins “morreram” no domingo pela tarde quando enfartei
“Morreram” junto com a parte do meu coração que se foi.
Nunca pensei passar por esta situação porque realmente sou cuidadoso
Mas já que passei, obrigo-me a ser melhor do que tento ser
Melhor filho, melhor irmão, melhor tio, melhor amigo
Enfim, uma PESSOA MELHOR.
Inclusive pra mim mesmo.

Obrigado!
Meu “NOVO” coração certamente reconheceu sua AMIZADE de sempre, o seu AFETO.
Tenho a convicção de que sua presença na UTI foi parte essencial do meu “retorno”.
Aquela porção espiritual que lhe assedia é um dom que DEVE ser compartilhado
Pois manifesta o seu “EU DIVINO” . Pense nisto.
Tentarei manter viva esta nova realidade que pensei não existir."

Paulo Márcio

2 Comentários:

Às 18 de Junho de 2007 22:43 ,Anonymous Sra Ivana disse...

Netinho, eu não tinha visto a resposta (comovente! ) do seu amigo Paulo.
Que coisa mais linda, é 1 lição pra todos nós!

 
Às 19 de Junho de 2007 14:59 ,Anonymous E.A. disse...

Netinho confesso que já deixei de fazer algumas perguntas prá você e acabei me arrependendo depois. Uma pergunta que ficou na minha garganta por um bom tempo foi essa: como vai o seu amigo Paulo? Após ler o post "Fragilidade e Intensidade" mandei o meu comentário com os meus votos de boa saúde para seu amigo e aconteceu alguma coisa pelo caminho da WWW que não foi publicado. Deixei passar e fiquei meia sem jeito para perguntar depois sobre a saúde de seu amigo Paulo e das sensações comentadas por você no momento da sua visita, nas quais me identifiquei muito. Enfim, agora tenho a resposta. Que bom que tudo deu certo para seu amigo Paulo. :-). Bjo.

 

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