Terça-feira, 12 de Junho de 2007

FAROFA DE BISCOITO

Publiquei esse texto no meu blog antigo no dia 22 de agosto de 2006, 03:12

Junho de 1998, Blue Estúdio, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Gravação do meu CD "Radio Brasil" que, entre outras músicas, tinha no repertório "Lugar Nenhum", "Indecisão" e uma regravação minha mesmo de "Por Teu Beijo".
Estava eu no meu estúdio por volta das 11 da manhã quando dei de cara com a cantora Alcione que estava lá fazendo alguma gravação. Ela havia pedido a meu sócio e então produtor musical Guto Graça Mello para me conhecer. Foi uma pequena festa. Minha banda também estava lá e todos tiramos fotos com a Marrom e rimos bastante. Foi massa!
Para mim, esta Maranhense de São Luís é uma das nossas melhores cantoras, dona de um vozeirão fantástico e de um jeito de cantar bastante particular. Acomodada confortavelmente no samba, ela também interpreta baladas românticas como ninguém e tem o dom de sempre imprimir calor e paixão nas melodias das canções que grava.
Ela é musicalmente farta!
Farta como artista e como ser humano também.
Farta e muito generosa.
Pelo menos foi essa a impressão que deixou em mim.
Naquele dia, antes de ir embora, ela me perguntou se estaríamos ali no sábado seguinte.
Eu respondi afirmativamente.
Ela então me disse:
- Menino, não peçam nada prá almoçar pois eu trarei uma comida prá vocês!
Aquilo soou um misto de surpresa, novidade, e para alguns, conversa fiada.
Imagine se Alcione iria voltar ali apenas prá levar um almoço prá gente...
Fala sério!
Voltamos às gravações e aquilo acabou sendo esquecido com o passar da semana.
Pense na dimensão da surpresa que tivemos quando, no sábado seguinte, Alcione baixou lá no estúdio acompanhada da irmã e de um sobrinho.
E o improvável aconteceu: Sob os seus braços havia pratos, talheres, e um verdadeiro banquete prá gente, feito por ela mesma.
Que coisa linda!
Vejo o ato de alimentar como algo de muito bonito.
Desde o peito necessário que é cedido por uma mãe ao seu filho até um jantar trivial que se prepara para amigos numa reunião informal.
Não falo do ato urgente de matar a fome. Necessidade.
Nem de saciar os famintos que convivem com a miséria. Obrigação.
Falo do ato desprendido, descompromissado e voluntário de preparar uma refeição e servir.
Há aí dentro, por mais lúdico que seja o momento ou a intenção, a riqueza do ato de alimentar.
Alcione, naquele dia, nos confirmou o quanto é bonito fazer isso.
Descompromissadamente.
Sem vínculos com causalidades.
Sem nenhuma necessidade urgente.
Apenas pelo prazer de servir. De alimentar.
Naquele dia, num ato humilde e muito humano ela nos serviu, um a um, como uma mãe.
Lembrei desse momento (transformado em presente) feliz e inesquecível que vivi e resolvi postar aqui depois de ler um e-mail que recebi de um blogueiro hoje à tarde. O e-mail era enorme mas o que me remeteu a este caso foi o seguinte trecho:

Não devemos dar muita importância ao que os outros vão pensar ou falar...
O que importa é sermos realmente felizes, não importando o quanto você possa parecer bobo ou errado, frente aos olhos de quem nunca vai saber o que realmente se passa em sua mente ou no seu coração...
A felicidade está aí, de graça e prá quem quiser tê-la.
O que precisamos é saber enxergá-la em cada pequeno presente que recebemos o tempo todo em nossas vidas!

Naquele dia Alcione cozinhou para nós um bobó de camarão inesquecível, acompanhado de arroz branco e farofa de biscoito cream cracker.
Ela nos deu um presente.


Marrom, onde você estiver, um beijo enorme no seu coração, do tamanho da sua generosidade.

Netinho